Mediação: um olhar sistêmico para o conflito

Por Ana Luiza Isoldi

para ALGI Mediação

Aprendemos que o conflito é o objeto da Mediação, a ponto de ser conhecida como Mediação de Conflitos. Parte do pressuposto de que os conflitos são inevitáveis, úteis, parte da vida e que, geralmente, levam a novas ideias e mudanças.

Na obra “Como chegar ao sim”, o best seller da negociação colaborativa, que deu origem à mediação em Harvard, FISHER, URY e PATTON nos ensinam que:   “O desafio não é eliminar conflitos, mas transformá-los. É mudar o modo como lidamos com nossas diferenças – em vez de conflitos antagônicos e destrutivos, solução de problemas de forma conjunta e pragmática” (2014, p. 13).

A função do mediador é apresentada como um terceiro imparcial que apoia as pessoas em conflito para facilitar a comunicação e incentivar a colaboração com o objetivo de encontrarem soluções que atendam aos seus interesses mutuamente e permitam a coexistência.

Em Chegando à Paz, URY acrescenta: “Nosso desafio não é eliminar as diferenças, mas tornar o mundo mais seguro para elas” (2000, p. 8).

Nessa abordagem do conflito propondo um olhar construtivo pautado nos interesses, elaborada especialmente pelo Programa de Negociação de Harvard, com visão interdisciplinar, inúmeros conflitos foram analisados. URY, BRETT, GOLDBERG, na obra Resolução de Conflitos, chegaram à conclusão que:

“Ou se tenta conciliar os interesses em conflito por meio de diálogo; ou se expõe a questão a um terceiro, que decide os direitos de cada lado; ou se decide na base da força, com a greve, por exemplo. Embora o métodos dos interesses seja, em geral, o preferível, os métodos dos direitos e da força têm um papel importante, mesmo que seja só de reforço, quando o diálogo não resolve” (1993, p. 35-53).

Posteriormente, além da Força, do Direito e dos Interesses, é proposto por URY um quarto método, paralelo aos outros três, consistente em “curar o relacionamento estremecido” (2000, p. 136), recomendando gerar o clima apropriado, ouvir e reconhecer, incentivar o pedido de desculpas e ter a reconciliação como meta. Explica que “mesmo que o conflito pareça resolvido após um processo de mediação, adjudicação ou sufrágio, as feridas permanecem e, com elas, o perigo de retorno do conflito. Não se pode considerar um conflito totalmente resolvido enquanto as relações feridas não tiverem começado a cicatrizar” (2000, p. 151).

Para a Constelação Familiar, o conflito está à serviço da sobrevivência.

Ensina HELLINGER que os pequenos conflitos cotidianos, “ajudam-nos a crescer, a encontrar soluções melhores, a ampliar nossas fronteiras. Portanto, em última análise, contribuem para a segurança e a paz” (2007, p. 11). Encobertos pelos pequenos estão os grandes conflitos, que envolvem questões de vida ou morte, extermínio ou sobrevivência, extinção ou manutenção. Conclui que:

“Podemos achar que eles não nos interessam tanto, pois ocorrem em outras partes do mundo, longe de nós. Entretanto, quando olhamos para o nosso interior, logo reconhecemos quantas vezes desejamos, em nosso íntimo, que se faça ‘justiça’ a certas pessoas, como a certos criminosos, ou desejamos o mal, e até mesmo o pior, às pessoas que nos lesaram. Com isso se manifesta em nossa alma o mesmo movimento que, em outros contextos, causa guerras e disputas, que causa danos aos outros e os leva à ruína. Por conseguinte, os grandes conflitos não estão tão distantes de nós como gostaríamos de admitir” (2007, p. 11).

São provocados por movimentos da alma e “sustentados pela convicção de estarmos com a razão – ou, em outras palavras, pela boa consciência” (2007, p. 11).

Pautados no que é correto, certo, justo, conforme a boa consciência, além de destruir o outro, passa-se a desejar incorporá-lo e apropriar-se do que ele possui. Muitas vezes essa necessidade de Justiça abala o equilíbrio entre o dar e o receber, entre ganhos e perdas, e o exagero na busca de compensação para equacionar esta balança leva à vingança, e assim sucessivamente. As pessoas escalam o conflito num ataque e contra-ataque sem fim.

Esse é o cenário que comumente se apresenta na mediação. E o mediador deve estar atento ao sistema das pessoas que estão participando do procedimento para ampliar o olhar e compreender o que realmente está por trás das histórias que são narradas. Muito além dos interesses por trás das posições, o mediador, com a postura  sistêmica, ajuda a trazer à consciência o que é essencial em relação às lealdades e padrões que repetem o destino de alguém que os precedeu.

Para solucionar os conflitos, a pergunta-chave na Mediação de Conflitos é “para que você está pedindo o que está pedindo?”, enquanto na Constelação Familiar a pergunta-chave é “onde está o amor?”.

Quando o mediador segue o amor, encontra o ponto essencial que levou ao conflito, e assim, torna-se possível desatar os nós dos emaranhamentos sistêmicos e abrir caminho para solução aos relacionamentos

Toda mediação é sistêmica, pois olha para as pessoas e elementos que se relacionam nos sistemas. O conflito é um dos elementos que compõe o sistema de relacionamentos.

 

Referências bibliográficas

FISHER, Roger; URY, William; PATTON, Bruce. Como chegar ao sim: como negociar acordos sem fazer concessões. 3.ed., revista e atualizada. Rio de Janeiro: Solomon, 2014.

HELLINGER, Bert. Conflito e paz: uma resposta. Tradução Newton Queiroz. São Paulo: Cultrix, 2007.

HELLINGER, Bert. O amor do espírito na Hellinger Sciencia. Tradução Filipa Richter, Lorena Richter, Tsuyuko Jinno-Spelter. 1. ed. Patos de Minas: Atman, 2009.

URY, William, BRETT, Jeanne, GOLDBERG, Stephen. Resolução de Conflitos. Lisboa: Actual, 1993.

URY, William. Chegando à paz: resolvendo conflitos em casa, no trabalho e no dia-a-dia. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

Publicado em www.movimentosistemico.com em 10.05.2021, com atualizações.

 

Gosto de pensar que é a partir do encontro com o Outro, que nos organizamos, nos reconhecemos e nos sentimos na possibilidade de avançar. Nos encontramos com a gente mesmo, a partir do encontro com o Outro. E cada encontro é inédito.
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