Improvisação e Mediação: IMPROMEDIAÇÃO

Helio Penteado*

Um excerto do curso dado através da ALGI Mediação pela Profa. Fernanda Padilha: ImproMediação.

O curso trata de soluções para o desenvolvimento da criatividade e de elementos do improviso para trabalhar e construir competências e habilidades sócio emocionais visando não só autoconhecimento mas também o aprimoramento  de lideranças em gestão de pessoas.

Improvisar cuida de uma transformação que se inicia com a própria investigação, com a investigação do próprio eu, dos nossos processos internos e não há outra maneira, autoconhecimento e consciência do momento de onde vim, para onde vou e quais os passos para chegar lá. Para tanto as ferramentas trazidas até nós pelas hábeis mãos da Fernanda foram não só a sua extraordinária vivência, mas também a Teoria U e o Teatro da Presença Social. Ela mesma define a Teoria U como uma tecnologia social que facilita inovações profundas e mudanças sistêmicas em situações complexas, possibilitando o desenvolvimento de um mindset de crescimento.

A partir do próprio lugar de onde nós operamos no mundo, o objetivo é abrir espaços para diferentes visões, para que possamos ter diferentes dimensões e perspectivas de uma mesma situação e para que a nossa ação prática inclua essas diferentes perspectivas. Ou seja, criar espaços para que cada um de nós possa manifestar com suas peculiaridades, trazendo isso para o improviso do teatro e aos diferentes atores que inter-atuam, cada um com suas características, com sua linguagem e seus entendimentos, e todos em prol do mesmo objetivo em comum, isso é teoria U.

 A teoria U propõe aprender aprendendo, ou seja, fazendo, agindo na prática, que é exatamente a definição de improviso – não começamos a jornada com uma solução pronta e completa, pré-definida, com as expectativas repletas de “comos”, “quandos” “ondes” nem “ porquês”. Não atuamos a partir de uma expectativa pré-idealizada que nos amarra passo-a-passo, pois, nesse caso, a projeção futura somente nos amarra e engessa as ações e os movimentos que devem ser livres acabam por condenados. As potências do agir, do pensar do sentir ao se unirem criam vetores adicionais e tangenciais que direcionam a novos movimentos em diferentes velocidades e acelerações.

Considerando todas as perspectivas, internas e externas, o modo através do qual aprendemos impacta nos resultados, e, se esse modo for engessado, quadrado, não fluído pois atracado a pré-visualizações, a anteriorismos pré-definidos, pré-visualizados, pré-determinados, a partir de um sedimento interno do agente de hábitos e regulações geradas por potências contidas tradicionais próprias, não soma ao conjunto: em outras palavras, não acontece, não flui, apenas parece movimento mas é estagnação. Não se trata aqui de investigar tanto o problema de forma, mas sim de entrar no conteúdo, dentro da mente pensante e apaixonante de nós mesmos, dentro da consciência de atuar, de agir, de cada forma de pensar e sentir, dos processos criativos que impulsionam o ser para sentir e agir.

Uma vez criado esse espaço de conhecimento e aceitação, um espaço de pausa, de vazio, de observação, um vazio cheio de possibilidades, repleto de aceitação e de escutas e observações, acontece a possiblidade de olhar e de ver,  de interagir e de alinhar todas as potencias em fluxo para um objetivo comum. Dessa forma a proposta da improvisação é a de “observar, observar e observar, e agir rápido”. O conteúdo já está aí, ao nosso alcance sempre, assim, basta atuar no sentido de reajustar a rota, de realinhar as velas quando o vento muda de direção para manter o mesmo curso, é o que a teoria U chama de prototipar, que é diferente da ação pela simples ação, pelo simples momento de agir, pela obrigação em apresentar, bater meta, performar, é uma não ação, é uma reação automática, não parte do vazio cheio de perspectivas.

Essa improvisação colaborativa que é a base do teatro da presença social, é uma aprendizagem corporificada, verdadeira reconciliação com o corpo, com a inteligência do corpo, das emoções que dão grandes pistas e direcionamentos, alertas e recursos  fundamentais na tomada de decisão, assim para aproveitar melhor nossos recursos precisamos olhar para eles e vê-los como recursos, pois, no mais das vezes eles se apresentam a nós como reações de menor valor, como a intuição, a perspicácia na escuta, a emoção, a inteligência emocional, a compaixão pessoal a empatia natural e os valores espirituais.

Assim, improvisar é aproveitar nosso recursos da melhor maneira , e precisamos dessa inteligência corpórea para tanto, precisamos aquietar a mente o coração e entrar em contato com as emoções de forma legítima e interessada, permitindo nosso corpo acessar esse recurso, mudando o lugar interior a partir de onde operamos no mundo, de onde abrimos espaços e horizontes para o novo poder se apresentar a nós. É uma reconciliação com nossa inteligência corporal como um dos recursos na tomada de decisão, aproveitando-o da melhor maneira.

Improviso então não é fazer de qualquer forma, mas sim uma forma especial de responder à vida, uma forma de aceitar o que chega para transformar, é o jogo do “sim, e sim eu aceito” oposto ao jogo do “sim, mas …”,  aceitar é gerar a possibilidade de transformar e atuar “junto a”, nessa nova etimologia proposta , pela Fernanda a palavra improvisação vem de im = privação, pro =  anterioridade e visão, privação da visão anterior, do apego às expectativas, ou seja, quase uma fenomenologia, um deixar para trás os pré-conceitos e pré-concepções de como agir, deixar que o eu se apresenta seja novo, como a descoberta das coisas pela criança. Nesse sentido não tenho então a visão do que vai acontecer, meus sedimentos e engessamentos sociais culturais e históricos não definem o aqui e agora e muito menos o depois, o improviso nos faz entrar no momento presente, sentir emocionalmente e interagir como meio e o entorno junto às potencias do acontecimento. 

É no improviso, dentro de um mínimo de contorno, um limite, uma área de atuação inicial, de informações bem tratadas, estudas e elaboradas, que acontece o mínimo, que acontece o exercício de fazer muito no pouco, que podemos sentir a relação do ambiente, conosco mesmo e com a situação que se mostra, como que chega, com o novo e  como respondo ao que acontece, como atuo a partir do entendimento da situação e não reajo no automático, o que chega até mim e o que esta acontecendo dentro de mim, minha resposta interna. 

Dar o primeiro passo sem ter certeza do caminho, com objetivo claro e propósito foco, mas sem rotas rígidas engessadas pré-definidas, o caminho se faz ao caminhar, como diria o poeta, 

“Caminante, son tus huellas

el camino y nada más;

Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino

sino estelas en la mar.”

[Antônio Machado]

Assim, aberto a ajustar a rota, recalculado… , assim, e só assim, permitimos manifestar a criatividade, conhecendo nossos recursos próprios e aceitando as possibilidades,  os co-significados para mim e para o outro. Quantas vezes por medo ou vergonha não apresentamos uma solução que outro traz, e que para nós não é novidade pois já havíamos pensado nisso. Todavia, caminhante, pensar em andar e não se mover não é andar. Pois se penso e não faço nada com aquilo, não ajo, não tenho uma conduta livre e consciente no sentido de dispor dos meus recursos para agir, não é criatividade. 

Decodificar a intuição e a sensação, agir nesse sentido, passo a passo, através dos sentidos vivificados a partir da observação e reconhecendo esses sentidos como fonte interna, recurso fundamental interno, pensar com o sentimento, essa é a tarefa do Mediador ao facilitar um processo de tomada de decisão onde as partes “empacam” não se movimentam, não veem, não observam mais a partir do vazio criativo cheio de possiblidades.

A ação por agir torna o movimento e a reação sem sentido, sem sentimento, sem acontecimento, o agir por agir é a falta de sentido, se torna vazia, se o pensar vem sem sentir, sem deixar todas as possibilidades abertas das novas e imprevisíveis rotas nunca pensadas.

Essa abertura de espaço interno pra que as diferentes perspectivas, pensamentos e sentimentos se integrem em mim, e a partir disso, eu caminhe, é “agir no campo do improviso”. A teoria U fala de mente aberta, coração aberto e vontade aberta, nesse sentido a vontade aberta é abrir espaço para o que vai chegar e está fora do meu controle, abrir espaço para a surpresa, para o acaso, embora o “como” fazer isso não esteja muito claro pois não tenho todas as informações, nem poderia, não controlo tudo que há, e assim mesmo eu vou, eu dou o passo, nem o primeiro nem o último, passo a passo, caminhando, fazendo o caminho. E assim, ter a visão completa de todo caminho, vejo o próximo passo, e outro, e mais um no improviso, na privação da anterioridade da visão.

Vontade aberta é incompletude, incerteza e lidar com o incômodo do não controle. No modo controle entramos no ambiente operacional de fazer-fazer-fazer, falar por falar, responder de pronto porque não suportamos o silêncio entre nós  –  responder, reagir, bater metas, isso que nos trouxe na sociedade do cansaço, e o modo não controle é permitir-se ao silêncio, ao nada e partir dele criar o movimento do andar. Os recursos estão todos aí e aqui, mas para percebê-los e deixá-los emergirem, para se apresentarem a mim, e a nós, precisamos do silêncio do novo, da concentração em mim, das sensações e emoções que me levam a esse novo conhecimento.

Preciso então, querer, ser consciente em aprimorar a sutileza que já existe em mim e passa desapercebida, a sutileza dos elementos que me tocam que me dão potência de agir, de fazer, de atuar. Fernanda nos traz os três grandes inimigos impeditivos da impeditivos da integração que é são:  a voz interna e externa do julgamento que bloqueia a mente aberta, a voz do cinismo que bloqueia o coração aberto e a voz do medo de perder, da falta de segurança, que bloqueia nosso desejo de experimentar nossa vontade aberta, medo da falta de controle. Suspensas essas vozes permito deixar ir e vir, permito o fluxo.Eis a boa nova, o devir, o que vai acontecer, se recebido dessa forma, de improviso, sem a pre-visão condicionada, é competência a ser instalada e desenvolvida no âmago do facilitador mediador no processo de decisão, não é decoreba de princípios que mal fazem sentido pois não sentidos, é atuar, consciente de cada potência que emerge, de cada segundo, de cara respiração de cada intenção e potencializar as intenções em um canal múltiplo comum compartilhando e responsabilizando a tomada da decisão.


Helio Penteado

* Mediador e negociador privado, certificado ICFML, Doutorando em Filosofia do Direito pela PUC/SP; Mestre em Direitos Humanos pela PUC/SP; especialidade em Psicologia Jurídica, Contratos, Processo Civil pela COGEAE; graduação em Direito na Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP, 1994; Línguas: Inglês avançado e leitura básica da italiana e espanhola. Estudos em filosofia, meditação, mildfullness e cultura da não-violência na Índia. Faz parte do time ALGI Mediação.

Um excerto do curso dado através da ALGI Mediação pela Profa. Fernanda Padilha: ImproMediação.
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